Mística

 

“No século XXI ou seremos místicos ou não seremos nada” (Karl Rahner)

“Sem mística não se pode pensar uma sociedade nova” (J. B. Libânio)

“Será que é possível construir homens e mulheres novos sem falar da mística?”
(L. Boff – Frei Betto)

O que entendemos por mística?

Com o desejo de melhor entender a questão da mística é importante fazer alguns acenos históricos. Para tanto, nos valeremos do trabalho de L. Borriello, “Experiência Mística”, in Dicionário de Mística, São Paulo, Paulus – Loyola, 2003.

A expressão “mística” provém do adjetivo grego “mystikós”, que por sua vez se origina do verbo “myo” que significa “calar-se”, “fechar os olhos”.

“Mystikós” era um termo usado nos “ritos iniciáticos das religiões”. Tratava-se, portanto, de iniciação ao mistério.

No contexto cristão, o significado do termo “mística” passou pela seguinte evolução:

– exegese dos textos da Escritura e da liturgia;

– esforço da alma que busca descobrir o Cristo na Bíblia e na liturgia;

– experiência interior da posse de Deus;

– para Paulo, depois da visão de Cristo na estrada de Damasco, o mistério da salvação tornou-se objeto de experiência. “Assim o termo ‘místico’ (…) passou a significar a descoberta do amor de Deus”;

– nos Santos Padres encontramos o tema da mística ligado ao mistério da presença real de Deus nos sacramentos;

– Marcelo de Ancira (374) cunhou a expressão “Teologia Mística” para diferenciar o conhecimento “inefável e místico de Deus” do conhecimento comum;

– Dionísio Areopagita faz repercutir a Teologia Mística com a precisão de que esse conhecimento inefável de Deus “é o ápice da experiência religiosa”;

– nos séculos XVI e XVII acrescentou-se a “consideração psicológica”, havendo assim um deslocamento “para as condições subjetivas da experiência”. Dá-se, aqui, apreço à questão da contemplação como experiência mística;

– no século XX surgem várias questões, dentre as quais destacamos uma: “a mística depende de método ou é dom gratuito?”.

Em síntese, parece-nos oportuno conservar o patrimônio da mística como sendo um encontro com o Outro Absoluto, em cuja experiência do divino se dá a união íntima de amor.

Encontro   –  Experiência    –     Intimidade de amor

Observamos, ainda, que seria muito importante aprofundar o conceito de “experiência” por ser ele rico em significados. Não havendo, aqui, essa possibilidade, lembramos apenas que o termo “experiência”, em latim “experientia”, provém do verbo “ex perior”, que significa “sair de”, “atravessar”, “passar através de”, “andar em direção a”.

Em se tratando da mística cristã, podemos falar de uma experiência que se dá quando o ser humano busca sair de si e, atravessando pelo mistério de Cristo, caminha na direção do totalmente Outro. Desse processo decorre uma transformação que leva o ser humano a ser mais humano a ponto de parecer-se divino.

Autor: Denilson Aparecido Rossi
(Teólogo, Filósofo e Palestrante)

 

 

 

 

 

 

 


  • Muito boa tarde, professor. Gostei muito desse post, pensando sobre a necessidade de uma mística cristã para a completude da verdadeira experiência religiosa, observando que a sua ausência provoca não menos que o legalismo e a hipocrisia de que tanto temos visto em pessoas que nunca de fato experienciaram o Evangelho Bendito de nosso Senhor Jesus Cristo para a partir desse nível de conhecimento totalmente desprovido do complemento da experimentação tecerem as suas ideias sobre o evento do numinous, como dirá o teólogo protestante C. S. Lewis:

    Em toda religião desenvolvida encontramos três fios ou elementos, e no cristianismo um a mais. O primeiro deles é o que o Professor Otto chama de experiência do numinoso. Os que
    não conhecem este termo podem entendê-lo mediante o seguinte artifício. Suponhamos que lhe dissessem que havia um tigre no cômodo ao lado: você saberia que estava em perigo e provavelmente sentiria medo. Mas se lhe dissessem que “há um fantasma no quarto ao lado” e você acreditasse, sentiria com certeza o que é geralmente chamado de medo, mas de um tipo diferente. Seu sentimento não teria como base a ideia de perigo, pois ninguém tem praticamente medo do que um fantasma pode fazer-lhe, mas o simples fato de tratar-se de um fantasma. Ele é “misterioso” em lugar de perigoso, e o tipo especial de medo que provoca pode ser chamado de pavor. Com o misterioso chegamos às fronteiras do numinoso.(LEWIS, 1986, p.8; o problema do sofrimento.)

    Assim, o assunto nos dá, pelo menos a princípio, uma introdução bem interessante sobre a natureza do que podemos sentir, de sua origem, sobre o místico, misterioso. Espero que minha opinião não esteja longe do que o professor está propondo nessa assertiva. Obrigado e abraços. Márcio Vitório

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