Abertura ao Transcendente

Você não é um ser humano que está tendo uma experiência espiritual.
Você é um ser espiritual que está tendo uma experiência humana.
(Pierre Teilhard de Chardin)

Um dos grandes desafios, hoje, é lutar pela justiça e, portanto, corroborar com a transformação da sociedade a partir de princípios de equidade. Ora, se precisamos transformar, significa que a sociedade não é perfeita, acabada. Ao contrário, necessita ser aperfeiçoada. Na realidade, a sociedade em si não existe, o que existe são as pessoas que a compõem. Logo, as pessoas não são perfeitas, acabadas. O ser humano, em sua natureza, é um ser em desenvolvimento, em processo de formação. E, por que não, aberto ao transcendente? Entendemos que sim, que a abertura ao transcendente faz parte da essência do ser humano.

Atendendo a esta necessidade de desenvolvimento e de formação da pessoa, acreditamos que o sentido do Transcendente e a abertura ao universo espiritual são valores a serem respeitados e que podem, em muito, auxiliar na formação de novos seres humanos, mais justos e humanizados.

Em sua obra de antropologia filosófica, A Estrutura da Pessoa Humana, Edith Stein defende que, para a ciência pedagógica ser completa e, portanto, atingir seus objetivos, é indispensável adentrar o campo das verdades reveladas. Nesta perspectiva de abertura ao transcendente, no final de sua análise preliminar sobre o ser humano, Stein confirma que, enquanto ser espiritual, a pessoa busca a Deus. Sobre isso, afirma a pensadora cristã: “A questão sobre o ser, a busca de Deus, pertencem ao ser humano”.[1] A filósofa convertida ao cristianismo, entende que o ser humano é capaz de “espiritualidade pessoal” o que, segundo ela, “significa ser vigilante e ser aberto” (STEIN, 1933-32/2013).

Ao discutir sobre a questão da imanência e transcendência do ser humano, o teólogo Leonardo Boff também concorda que a questão de abertura ao transcendente é algo intrínseco à natureza humana, ao afirmar que “somos seres de enraizamento e seres de abertura. Primeiramente nos sentimos seres enraizados. Temos raiz, como uma árvore. E a raiz nos limita, porque nascemos numa determinada família, numa língua específica, com um capital limitado de inteligência, de afetividade, de amorosidade. […] Mas somos simultaneamente seres de abertura. Ninguém segura os pensamentos, ninguém amarra as emoções. Elas podem nos levar longe no universo. Podem estar na pessoa amada, podem estar no coração de Deus” (BOFF, 2000, p. 7).[2]

A respeito da transcendência, o Catecismo da Igreja Católica esclarece que o ser humano é capaz de deus – Homo capax Dei. Ao tratar da Profissão de Fé, já no início do primeiro capítulo, afirma o documento oficial do Magistério: “O desejo de Deus é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. Deus não cessa de atrair o homem para Si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a felicidade que procura sem descanso […]. De muitos modos, na sua história e até hoje, os homens exprimiram a sua busca de Deus em crenças e comportamentos religiosos (orações, sacrifícios, cultos, meditações, etc.). Apesar das ambiguidades de que podem enfermar, estas formas de expressão são tão universais que bem podemos chamar ao homem um ser religioso […].[3]

Refletir sobre a questão da abertura ao transcendente, como princípio constitutivo da pessoa humana, pode ajudar as pessoas a tornarem-se mais justas e, consequentemente, construtoras de um mundo melhor, no qual venha a reinar a justiça, o amor e ternura.

Autor: Denilson Aparecido Rossi.
(Teólogo, Filósofo, Professor e Palestrante).

Fotos: imagem google

 



[1] STEIN, Edith. (1932-33). La strutura della persona umana. Corso di antropologia filosofica. A cura di Angela Ales Bello e Marco Paolinelli. Traduzione dal tedesco: Michele D’Ambra. Roma: Città Nuova. Edizioni OCD, 2013, p. 44.

[2] BOFF, Leonardo. Tempo de transcendência: o ser humano como um projeto infinito. Editora Sextante, 2000.

[3] Catecismo da Igreja Católica, n. 27-28. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c1_26-49_po.html> Acesso em: 28 de jan. de 2016.


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